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Texto:
Inês Marta
Fotos
: Alexandre Marta

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ONÉSIMO TEOTÓNIO DE CARVALHO
(NÃO NOS)
CONTOU ACERCA DAS
“AVENTURAS DE UM NABOGADOR”
"Tertúlias do
Centro Cultural do Alto Minho"
A conversa sobre o livro a lançamento, com título em epígrafe,
foi o menos importante nas duas horas que pudemos privar com
Onésimo Teotónio de Almeida no passado dia 22 de Junho, por
ocasião de mais um colóquio/Tertúlia levado a cabo pelo CCAM.
Importante porque é, sempre, ouvir um conterrâneo, com a
formação académica e pessoal muito “à la americaine” - ou não
fosse professor universitário nos E.U.A. – acerca da sua visão
da América, de Portugal e do mundo.

Texto:
Inês Marta
Fotos
: Alexandre Marta
Durante a
apresentação o autor salientou a importância da discussão
objectiva de ideias. Referiu ainda que, em Portugal, “o
debate de ideias descamba em discussões mesquinhas em que a
subjectividade e a pessoalização dominam, havendo, de facto, a
tendência para se tudo se pessoalizar”. Nos debates deveria
debater-se ideias sem se entrar em questões pessoais ou
particulares, nem se deveria dizer nada ofensivo. Onésimo
Teotónio de Almeida pretende fazer um pouco de pedagogia:
incentivar a discutir ideias sem enxovalhar ninguém, objectivo
que, no entender do professor de Filosofia, é quase quixotesco,
uma vez que enxovalhar as pessoas tem, em Portugal, o valor de
tradição secular. Afirma o escritor que em Portugal raramente se
faz humor inteligente: “achincalham-se as pessoas”.
Não
sabemos se esta “tradição” é exclusiva do nosso país. Os
programas televisivos estrangeiros que chegam até nós desmentem
a ideia. Vejamos o “night show” de Jay Leno, por exemplo, citou:
-“Muitas vezes nós criticamos Portugal e tomamos como
exclusivo do nosso país defeitos comuns a outros países, como a
tendência para pessoalizar, cada vez mais comum nos dias de
hoje. Muitas vezes, nós, os portugueses, temos prazer de
veicular essa ideia de exclusividade nos defeitos reproduzindo-a
quase a torto e a direito. Essas ideias são também transmitidas
por portugueses que viveram ou vivem ainda no estrangeiro ou
então por estrangeiros que vivem em Portugal”.
O autor
fala-nos do conto lido que trata essencialmente do medo de andar
de avião. Diz-nos que todas as crónicas (ou estórias) deste
livro são verdadeiras ou pelo menos têm nexo com a realidade. Os
ensaios não são diferentes das crónicas. Nos ensaios veicula-se
ideias abstractas enquanto que nas crónicas concretizam-se essas
abstracções.
O autor
escolheu o termo “estórias” e não “contos”, porque as pessoas
têm uma noção muito específica de “conto”, veiculada desde a
instrução primária. O termo “estória" não é novo: já se usava
nos séculos XIV e XV. Usa-se muito no Brasil e, actualmente,
usa-se cada vez mais em Portugal. Não tem um formato tão rígido
como o conto. Uma “estória” não tem moral. Só antigamente é que
as histórias tinham uma moral explícita. Hoje em dia a moral é
demasiado ampla para ser explicitada. Agora mostra-se uma
situação e cada leitor tira as suas conclusões.
Após
estes esclarecimentos, o autor pede aos presentes que façam
perguntas, de maneira a tornar a palestra mais comunicativa.
Entretanto, o escritor conta algumas histórias sobre outras
palestras, entre essas, um relato de uma estória real passado
nos Açores: uma senhora casada, e mãe de filhos, foge de casa
com outro homem. Mais tarde, na missa, a propósito do caso, o
padre da freguesia diz “nem as cadelas fazem isso”. A família da
senhora ofende-se e exige ao padre um pedido de desculpas. No
domingo seguinte, o padre diz que pede desculpas, mas às
cadelas.
Respondendo ao apelo feito anteriormente pelo orador, Alexandre
Marta pergunta o que quer dizer com a expressão ”despentear
parágrafos”. Onésimo T. de Almeida responde que a expressão
remonta a uma das suas obras escrita nos anos ’70. Trata-se de
uma paródia a Salazar. Na escola de Coimbra também se passava o
tempo a pentear parágrafos. É preciso “despentear os parágrafos”
para mostrar o que está escondido sob o penteado.
Sobre
isso retoma o fio anterior reforçando que “nós, os
portugueses, somos muito sensíveis. Quando há polémica pública,
pessoaliza-se mesmo com coisas que nada têm a ver com a questão.
Quem ganha a polémica é quem chama mais nomes, quem é quem
insulta mais”. Mas que “quando se despenteia parágrafos, não
se pessoaliza, objectiva-se a questão; que nos debates, deveriam
debater-se ideias sem se pessoalizarem as questões, mas antes
objectivar-se sem dizer nada ofensivo. Fazer um pouco de
pedagogia. Discutir ideias sem enxovalhar ninguém. Esse é um
objectivo quase “quixotesco”. Quando se faz humor,
achincalham-se as pessoas, sem se fazer humor inteligente.
Interrogado sobre a passagem de Charles Darwin nos Açores, o
autor responde que, nessa questão, houve alguns mal-entendidos.
Na realidade, houve dois livros escritos pelo cientista. Um mais
conhecido - um livro de memórias – e, outro, “O Diário de
Bordo”, em que Darwin fala sobre os Açores. Nesse, há relatos
que levaram muitos anos a serem publicados em português. Nos
nossos livros de Geografia, fala-se disso. Existiu um autor
português, um autodidacta, que escreveu um único livro que
defende Darwin e a sua Teoria da Evolução, em 1881.
Seguidamente, contou várias histórias sobre os Estados Unidos da
América, país onde reside actualmente. Afirma que “tem havido
mudanças no campus universitário, nomeadamente nas
relações entre os professores e os alunos”. Explicou que,
antigamente, o professor detinha o poder sobre os alunos, mas
agora, nas sociedades modernas, os professores estão mais
condicionados. No livro faz referência a um caso de um professor
que foi constituído arguido por “cortar as pernas”a uma aluna,
porque não as “podia abrir”. As mudanças das relações
pedagógicas prendem-se com as mudanças nas relações entre os
sexos, em que as mulheres têm mais autonomia.
No que
diz respeito à extradição de estrangeiros, o escritor afirma que
é preciso estar lá nos Estados Unidos para entender, uma vez que
“constituem uma nação muito poderosa e desenvolvida, com
grande parte da população mundial a querer viver lá. São vinte
milhões de imigrantes ilegais. Tem de haver normas muito rígidas
se todos quiserem lá permanecer”.
Durante a
palestra, talvez o livro a apresentar tenha sido o menos
importante. O mais interessante começa sempre quando o cansaço
chega. As vivências e experiências do autor é o mais cativante.
A palestra desenvolve-se a partir de algumas perguntas feitas
pelo público acerca de outras palestras ou lançamentos em que o
autor esteve anteriormente. O professor catedrático acabou por
explicar, no seu entendimento e experiência, o que é ser
americano. E por isso valeu a pena.
Um autor poliédrico
Onésimo Teotónio de Almeida é professor
catedrático no Departamento de Estudos portugueses e Brasileiros
da Brown University, Providence, Rhode Island, EUA, de que foi
director de 1991 a 2003, sendo natural da freguesia de pico da
Pedra, em S. Miguel, Açores a 18 de Dezembro de 1946. Lecciona
na Brown desde 1975. É doutorado em Filosofia pela mesma
universidade (1980) e é “Fellow do Wayland Collegium for Liberal
Learning”, um instituto de Estudos Interdisciplinares da Brown,
onde lecciona uma cadeira sobre Valores e Mundividências.
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