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O Vendedor de óculos
Antonino Cacho*
Legenda da foto: O Paço de Giela
(Foto do autor)
Abro a janela que dá para o rio Vez, que já não murmura, nem os
pássaros gorjeiam ao entardecer. Ao seguir o seu destino fatal,
o rio Vez caminha, vagarosamente a precipitar-se nas águas do
rio Lima…
… “onde o nome perde”, como cantou o poeta Diogo Bernardes.
Sem nome, o mítico rio Vez, todo arcuense, deixa de existir –
morre sem honra nem glória. E, acompanhado do Lima, ambos vão a
enterrar na campa do Mar de Viana. Os amigos do rio Vez, tais
como os patos do rio Vez, fugiram, e calaram-se os poetas da
terra, tão badalados, como tão esquecidos.
Os amigos
do rio Vez fugiram e calaram-se os poetas da terra, tão
badalados, como tão esquecidos
Ao sentir o amor à terra e ao ouvir o rumor da seiva, Teixeira
de Queiroz interrogava-se: - “Que espécie de loucura é essa
que leva um coração a morar fora do seu peito? Não a percebo, eu
que sinto vivíssimo o amor da terra, em que nasci, que até julgo
ouvir o rumor da seiva nas minhas árvores, comos e fora o meu
próprio sangue, que irrigasse o meu cérebro”.
Como toda a história tem um fundo moral, ontem o povo aventava
que “mais valia a pobreza herdada, que a riqueza roubada”.
E que o mundo era dos espertalhões, que “sabiam governar a
vida”, o que não se lhes podia levar a mal. Hoje, escreveu
um autor da praça literária de Lisboa (se não me engano) que
“viver todos os dias cansa”… Quem está cheio de vida, ou
quem viveu num mundo de ilusões, como se morre só uma vez, o
povo diz “quem tiver pressa, que vá andando”. Mas o
homem, quando chega ao Outono da terceira idade, ao estar
cansado da vida, sente que deu tudo o que tinha à vida, mas que
da vida já não pode esperar mais nada.
O homem,
quando chega ao Outono da terceira idade, sente que deu tudo o
que tinha à vida
Em Arcos de Valdevez doutras eras (séc., XIX), havia a doutrina
terapêutica que se baseava no princípio de que era possível
obter a cura de certos males com doses mínimas de medicamentos.
Os chamados homeopatas de boa cultura, que substituíam os
médicos nas aldeias, valorizavam-se de ter obtido curas de
vítimas de mordeduras de cães raivosos, antes das descobertas de
Pasteur.
A terapêutica nessa altura usada era a do ferro em brasa
colocado na ferida pelo ferreiro. Mas os êxitos do homeopata
corresponderiam a casos em que o ferro em brasa, eventualmente,
resultara ou a situações individuais raras de resistência ao
vírus. O referido homeopata morreu vítima de contágio de um
doente de varíola ao qual, graciosamente, proporcionou cura sem
evitar que ficasse “picado das bexigas”, como era muito
frequente. Todos estes técnicos vieram substituir os práticos
que, no entanto, sobreviviam, como os barbeiros que extraíam
dentes e punham massa nos buracos. Nas aldeias, os ferradores
desembaraçavam-se de funções idênticas, sempre necessárias. As
freiras eram procuradas por dentistas, que exibiam as suas
artes, prestando serviço, o melhor possível, às populações
rurais.
A
terapêutica nessa altura usada era o do ferro em brasa colocada
na ferida pelo ferreiro
Numa loja de ferragens da vila vendiam-se óculos a fregueses que
os experimentavam, tirando-os duma caixa, onde se amontoavam,
sem se poder saber as graduações. E o escritor Eugénio de Castro
Caldas conta, de se recordar, em pequeno, ver um camponês idoso,
a quem o comerciante escolheu uns óculos muito bons para a vista
cansada, e que se lamentava não poder vem com eles. O paciente
afligido, insistia: - “Não vejo… não posso ver com eles!”
Mas o diagnóstico do vendedor de óculos era impiedoso: -
“Vocemessê não vê... vocemessê não vê, porque é burro!”
Aqui, lembro a história daquele fanático da bola - que ainda
hoje há muitos -, quando assistia a um jogo de futebol no campo
da sua vila, e chamava ao árbitro “gatuuuuuno...!”,
porque não marcou o castigo máximo, o tal “penalty”, dentro da
grande área do adversário. Logo aos berros: - Ó sôr árbitro,
não viu ou é ceguinho?!! Hei de lhe oferecer um par de óculos
com lentes de cortiça”. O pior aconteceu quando o árbitro
marcou, quase no fim do jogo, “penalty” contra a equipa local.
Foi o diabo! Como touros bravos, os assistentes invadiram o
recinto do jogo… e a equipa de arbitragem só abandonou o
balneário protegida pela patrulha da Guarda, já caia a noite.
*Arcos
de Valdevez
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